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O que sou eu?

No Brasil sempre me chamaram de Japa, ou Japinha. Chegando no Japão, passei a ser brasileira. Mas não uma brasileira como a Gisele Bundchen,mas uma nikkei burajirujin, ou gaijin, nikkeijin. Qualquer coisa, menos japonêsa.

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Forasteiros

Quem tem ascendência japonesa e cresceu fora do Japão, com certeza foi muitas vezes chamado por algum apelido relacionado à origem asiática, como “Japa”, “Gueixa”, “Não Sei”. Isso porque ter traços diferentes dos habitantes “locais” ainda hoje significa ser visto como estrangeiro, mesmo num país com tantas misturas raciais como o Brasil – um dos mais multiculturais do mundo. Devido à variedade de povos (europeus, orientais e árabes) que misturaram seus genes, língua e costumes à base do povo brasileiro original – o índio, o português e o africano –, conseguimos a façanha de superar barreiras idiomáticas, religiosas e sócioculturais, mas ver um negro casado com uma nissei, um filho de alemães namorando uma índia, um brasilerinho cujo pai é árabe e a mãe é judia, não significa que tenhamos absorvido todas essas culturas.

A salada existe, mas ainda empurramos para o canto do prato grupos como o dos descendentes de orientais.

O entre-lugar

Se para você conceitos também confundem, e fazem a sua imagem parecer entrar em choque com o meio, você não está só. A esse sentimento de estar perdido, de não saber-se (ou não ser) nem uma coisa nem outra descrito na música chamamos “estar no entre-lugar”. Traduzindo em imagens, porque elas sempre explicam melhor, seria assim:

Uma estrada. À esquerda uma margem; à direita, outra. No meio, você.

Captou? No Brasil, japoneses; no Japão, QUALQUER COISA, menos japoneses. Ou seja, um mapa com centenas de estradas que levam a vários lugares, e no meio, você, sem saber qual pista tomar, sem nunca sair do lugar porque esteja onde estiver, nunca será considerado como “parte do grupo”.

É aí que entra a IDENTIDADE. Não o documento, aquela carteira de papel, com sua foto e assinatura. Mas a Identidade Cultural, que ecoa afirmativamente respostas do tipo “quem sou”, “quais meus valores, minha terra, minha gente”.

A Cultura de um povo, que se traduz em seus costumes, crenças, festividades, comportamento, forma de entender o mundo, e uma infinidade de cores que não percebemos no dia-a-dia, é que nos dá a Identidade e a noção de fazer parte de um grupo.

Bolha

A nossa Identidade fica extremamente evidente quando damos de cara com outra cultura, e aí temos a certeza de quem realmente somos. Não importa que ascendência uma pessoa tenha, não importa a Identidade de seus pais e avós, o que determina a sua identidade cultural e o grupo a que ela irá se identificar, assim como os valores, costumes e modo de pensar será o meio onde ela vai crescer. Por isso querer que filhos e descendentes de japoneses idolatrem a terra de seus pais e assumam seus hábitos é forçar alguém a ser o que não é. Da mesma forma, reprimir nas crianças que crescem no exterior a identificação com os valores locais e até um certo sentimento de patriotismo com a nova terra pelo simples fato de que nasceram no Brasil ou são filhas de brasileiros é impedir que elas construam sua própria identidade e afirmação enquanto indivíduo.

Mas esse processo de formação da Identidade, que é contínuo, exige bastante e às vezes esbarramos na gigantesca necessidade de nos adaptarmos, tanto de dentro para fora, como de fora para dentro. Um exemplo comum é a pressão por que passam nossos pequenos cidadãos em salas de aula de escolas japonesas. Vítimas da discriminação ou ignorância de professores e colegas, às vezes são obrigados a aculturar-se e deixar de lado suas raízes e identidade para serem aceitos no meio, ironicamente num país que se elevou a potência graças ao gigantesco investimento de capital estrangeiro e segue dependendo exclusivamente do mesmo e do comércio exterior (vide a profundidade da crise aqui), mas que ainda finge-se “puro” e vivendo dentro de uma bolha, em cuja etiqueta leem-se letras ocidentais.

Pessoas como eu que morou no Japão,sabe exatamente o que é isso.

Daí fica a pergunta : O que sou eu?

Agradecimentos: Vitrine/Chiuzo

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2 Responses to “O que sou eu?”

  1. Safadodi disse:

    Eu sinceramente odeio a miscigenação de raças. Não me considero racista, mas acho que a miscigenação ajuda a desenvolver o racismo contra a própria raça.

  2. Rafael Joey disse:

    Ronaldo

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